Casa Tomada, de Julio Cortázar

março 19, 2008 at 3:27 am (Contos)

Casa Tomada é um conto de Julio Cortázar que foi primeiramente publicado na revista Anales de Buenos Aires por Jorge Luis Borges, e depois compilado com outros contos do autor no livro Bestiário, de 1951. Não pretendo fazer aqui uma análise formal do conto de Cortázar, muito menos fixar uma interpretação de revelaria o sentido último do mesmo. Os bons contos, principalmente os de Cortázar, são finalizados na cabeça do leitor, sem a pretensão de respostas fáceis e ordinárias.

Não obstante o universo infinito de interpretação, existem limites a serem respeitados dentro da leitura de um texto. Como na geometria euclidiana, um segmento de reta contém infinitos pontos, mas ainda assim não abrange a totalidade de pontos do plano em que está traçado. Tenho apenas o objetivo de articular as possibilidades de leitura do conto de Cortázar com uma temática que julgo importante, mas que ao mesmo tempo é suscitada pelo conto: a questão da memória e do esquecimento.

O enredo é relativamente simples: o narrador e sua irmã, Irene, imersos na trivialidade da realidade cotidiana, têm a casa onde residem tomada. Tomada pelo que? Não sabemos. Forças ocultas, entidades insondáveis, forças irracionais, difícil dizer. Entretanto, Cortázar se utiliza neste conto de um recurso metafórico clássico: a realidade objetiva da casa como representação da realidade subjetiva dos personagens.

Desde o princípio do conto a casa é a figuração de uma preservação: a memória dos parentes, da infância e da história dos personagens. Não é a toa que a casa é grande e espaçosa, Irene e seu irmão já não são jovens, e ambos chegaram a um estado de suas vidas onde a companhia de cada um lhes bastava. Dentro desse universo estruturado, tingido pela coagulação da memória, a casa desempenha o papel de espelho material desse universo preservado. A vida é rotinizada, bem com a relação entre os personagens: fazem sempre as mesmas coisas, nos mesmos horários, do mesmo jeito. O imobilismo dessas relações e rituais cotidianos representa a fixidez de suas histórias e da memória, que deve ser sempre límpida, constantemente relembrada e vivenciada: “Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete(…)Era agradável almoçar pensando na casa ampla e silenciosa e em como nos bastávamos para mantê-la limpa”.

Frente à preservação e à conservação, o esquecimento e a destruição da memória: a parte dos fundos é tomada. Parte esta (além da porta de carvalho) que raramente era visitada, a não ser dentro do itinerário diário de tirar as poeiras dos móveis. A coloração da vida perde mais alguns tons: a biblioteca com livros franceses, um par de chinelos, um cachimbo de zimbro, todos prisioneiros da parte tomada da casa. A penosa existência depois do grave acontecimento dura pouco. A realidade volta a tomar os contornos fixos de uma renovada realidade imóvel, constante, sempre existente, e os personagens seguem em seu cotidiano ordinário e regulado. Nós somos o que nós lembramos que nós somos, e como bem coloca o narrador do conto: “Estávamos bem, e pouco a pouco começávamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.” Conjuntamente com a destruição da memória e da história, o esfacelamento das identidades, da vida material necessária para sustentação da saúde psíquica, da realidade confortável e bem contornada.

A perda material dos indícios da realidade existente leva, como que por presdigitação, ao esquecimento da realidade perdida e, por conseguinte, à sua inexistência. A oposição conceitual entre realidade e linguagem é quebrada. Ambas estão entranhadas, e já é impossível distinguir uma da outra. O mundo não está “lá fora” pronto para ser descoberto, é preciso também produzir o mundo, torná-lo inteligível, inseri-lo dentro do universo conceitual que nos permita transformá-lo.

A mesma coisa acontece com Leonard Shelby, personagem do filme Amnésia, de Christopher Nolan. Sua identidade, memória e história são cacos estilhaçados de um espelho partido, onde sua figura é refletida de maneira vacilante e disforme. Na tentativa de montar o quebra-cabeça, Leonard cai em contradições, falsos fins e falsos começos. Sua incapacidade de reter novas memórias o torna incapaz de se reconhecer frente a sua auto-imagem, em um presente contínuo eterno, onde não existe tempo, nem causalidade, nem cura. Tempo imóvel que não arrefece o instinto de vingança, não distende a dor, mesmo que o assassino de sua mulher já esteja morto. Mesmo que ele tenha o matado, ele não sabe, ele não se lembra.

Leonard diz, em certa parte do filme, que sua mulher precisa ser vingada, e se convence de que mesmo sendo incapaz de lembrar, a memória não muda a significação de seus atos. Leonard era um detetive, seu trabalho se baseava em evidências, provas concretas, indícios consistentes. Como ele mesmo diz, a memória pode mudar a cor de um carro, a fisionomia de um rosto, o dia exato de um acontecimento. Mas provas são imutáveis, inalteráveis e, acima de tudo, confiáveis. Por isso as tatuagens: sendo incapaz de reter os fatos em sua memória, Leonard os retém fisicamente, materialmente em seu corpo, como uma maneira permanente de tomar notas. Leonard rejeita o relativo e o impreciso, pois busca a revelação da realidade, e de sua verdade, como se ela estivesse materialmente fixada na cor de um carro, na fisionomia de um rosto, no dia exato de um acontecimento. Mas é preciso lembrar: o contrário de relativismo não é “a verdade”, é o absoluto, a tragédia sem fim, eterna, imutável.

Não obstante tratem de uma mesma percepção da importância da memória para a manutenção do conhecimento, da realidade e da identidade, o filme Amnésia e o conto Casa Tomada possuem itinerários invertidos. Enquanto Leonard recorre a indícios, vestígios e reminiscências materiais do passado para remontar uma realidade perdida, os personagens de Casa Tomada contemplam passivamente a destruição da suas memória e história, e, por fim, de suas identidades. Irene e seu irmão, assim como Leonard, são assaltados pelo absoluto, pela corrosão incontornável da realidade, pelo esquecimento.

Em contrapartida, o antípoda alegórico dessa realidade dentro do universo literário é representado por Jorge Luis Borges em seu conto Funes, o memorioso, do livro Ficções. Funes nunca se esquece, não tem capacidade de abstração, nem articulação intelectual, pois o topos de sua tragédia está localizada no registro oposto: a incapacidade de esquecer, a incapacidade de refrear as lembranças. Sua inépcia em lidar com o mundo reside em sua incapacidade de entendê-lo formalmente, de maneira abstrata. A realidade transborda para todos os lados em uma miríade de relações impossíveis de serem captadas.

Seja em Casa Tomada, no filme Amnésia ou em Funes, o memorioso, as relações entre memória e esquecimento estão estruturadas de maneira a revelar uma mesma congruência: que elas possuem uma importância muito maior para a construção e preservação da nossa realidade e do nosso conhecimento do que estamos dispostos a reconhecer.

Julio Cortázar. Bestiário. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

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Complexo de Portnoy, de Philip Roth

março 19, 2008 at 3:19 am (Romances)

 

O Complexo de Portnoy, do autor americano Philip Roth, foi escrito em 1969, no auge da revolução social e sexual que permeava todo um movimento de contestação aos valores da velha ordem, da continuidade, da fixidez puritana. O estilo de Roth é corrosivo, sua lucidez é contundente, seu humor é desconcertante. Calcado fortemente nas apresentações de stand-up comedy de Lenny Bruce e no fino humor de Woody Allen, o livro se apresenta como uma interminável piada de judeu, e seria muito mais engraçado se não fosse trágico.

Portnoy é um bem sucedido advogado judeu que, junto ao seu psicanalista, Dr. Spielvogel, tenta resolver suas frustrações sexuais e conter suas impulsividades lacinantes. No divã, Portnoy fala de sua infância, de sua mãe controladora e onipotente, de seu pai subserviente e vendedor de seguros, de sua irmã balofa e sem voz, de uma atmosfera injetada de auto-comiseração judaica e de um mundo onde a tradição familiar é uma forçosa corda no pescoço, pronta a estrangulá-lo a qualquer momento, principalmente se ele misturar carne com leite, ou for pego se masturbando no banheiro, inebriado pelas coisas do sexo.

Portnoy vive em uma constante contradição. Seu complexo: fortes impulsos éticos e altruístas em contraposição a anseios sexuais extremos, comumente imbuídos de uma natureza pevertida, tudo isso ligado a um avassalador sentimento de culpa e a uma incapacidade de sentir prazer. Durante o livro, narrado em primeira pessoa, toda sua vida é repassada na tentativa de encontrar a cura para seu complexo. Portnoy é um devasso em um mundo repressor e punitivo, é uma peça sem encaixe na máquina das relações socialmente aceitas, é uma mancha em um vestido de gala, feito para a ostentação e para o deslumbramento, mas que traz o repugnante estigma do perverso, da depravação e do desvio, em um mundo que não permite a diferença, a alteridade e as roupas manchadas.

Somos guiados pela escrita precisa e fluída de Roth através do monólogo lamentoso e hilário de Portnoy, em seus assombros e desencontros, em seus desatinos e confusões, gargalhando de sua vida vazia e sem sentido, sem prazer, sem gozo, paralizada pelo medo e culpa, pelas normas sociais impostas e arbitrárias, pelo desejos e impulsos imponderáveis. Portnoy tenta incessantemente fugir de sua natureza corrompida e nefasta, incapaz de se hamonizar com o universo insípido e asséptico em que vive, apenas para cair em mais trangressões e disparates, para se chafurdar mais uma vez na vida real, com seus suores, com sua sujeira, com seus desejos humanos (e como são humanos, somos nós!) e mundanos, com uma boa trepada, com o belo sexo de uma bela mulher. Portnoy busca a vida real, com toda a lama que ela pode proporcionar, mas esse mundo é demasiamente sujo para ser aceito e integrado em seu próprio eu. Sua culpa não permite, sua educação rejeita, seus ideais vociferam e o aterrorizam.

Rimos compulsivamente de Portnoy, e rimos de nós mesmos. Seus sofrimentos são caricaturas genuínas de nosso próprio mal-estar, do nosso próprio desencontro entre pólos conflitivos, entre a razão e o desejo, entre a compreensão e o devaneio. Brutalizado pelas suas escolhas, pelos seus desejos, pelos seus sentimentos, Portnoy tenta fugir, sumir de si mesmo, se abstrair e busca a cura terapêutica. Seu final é ambíguo, pois não nos é possivel saber se essa cura será a aceitação de si mesmo, com todos os seus desatinos (desatinos?), ou a conformidade às normas que tanto o levam a destruição de si mesmo….

Philip Roth. Complexo de Portnoy. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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Minhas impressões sobre o conto

março 19, 2008 at 3:12 am (Contos, Crítica Literária)

Julio Cortázar tocando trompete

O conto, como forma narrativa, envolve alguns elementos estilísticos e formais que, em uma primeira leitura, podem parecer muito intrincados e peculiares, de forma que a sua leitura e decifração exigem um compromentimento visceral do leitor com o texto. Um conto pode ser lido de muitas formas, suas significações mudam de acordo com os ânimos e o temperamento, suas cores e texturas se dispersam e se coagulam cada vez que nos debruçamos sobre ele. Isso acontece sempre que estamos prontos a perceber os sentidos ocultos que até então nos eram totalmente misteriosos.

Dessa maneira, qualquer forma de leitura desinteressada se torna um desastre para o entendimento do conto. A primeira leitura é sempre insuficiente. São necessárias sucessivas releituras, que devem revelar camadas sobrepostas de entendimento e reconhecimento que nos permitam penetrar no enigma daquele conto. E quando isso acontece, temos a sensação de o ter lido muitas vezes como se fosse a primeira. Esse é o grande barato de ler contos. Sua capacidade mutante, instável, que vacila e que não fixa por si só o sentido da ficcionalidade ali posta. O conto, como forma de narrativa, nada mais é do que uma linguagem, e ser alfabetizado não é o bastante para dominá-la em suas diversas formas, em seus múltiplos dialetos. Como o Pedro bem me disse uma vez, toda forma de arte é uma linguagem que deve ser dominada e aprendida, no intuito de revelar os sentidos escondidos de uma realidade essenciamente sem sentido, transbordante. Talvez, me arrisco a dizer (ou foi o Pedro?), esse contato com a realidade, essa re-ligação primordial, sua compreensão e comunicação (ação de tornar comum), seja o fim último da arte – da boa arte, pelo menos.

Existem alguns excelentes. Uma casa que é tomada por elementos insondáveis (Casa Tomada, Julio Cortázar), um objeto esférico que concentra todo o universo (O Aleph, Jorge Luis Borges), o amor que paralisa um pintor como uma morte dilacerante (Os Amigos, Juan Carlos Onetti). Neles, o absurdo e o fantástico, o impossível, as fissuras da realidade que revelam a constante e ameaçadora falta de sentido, sempre pronta a atacar e destruir, a contrapelo, o cotidiano trivial e ordinário. Contos que se abatem sobre nós com uma força avassaladora e que tentam descortinar todo um universo de coisas que não sabemos, que nem conseguimos imaginar. Ao meu ver, essa deve ser a função de um conto, essa me parece sua principal proposição em termos de conteúdo, independetente de suas variações formais. Mais do que isso, essa deve ser a função da literatura. Sem mais.

Na foto: Julio Cortázar tocando trompete

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Piglia e o meu desespero

março 19, 2008 at 3:09 am (Crítica Literária)

Ricardo Piglia me foi apresentado pelo colega de blogue Rodolfo.Piglia é argentino, escritor, professor da Universidade de Princeton (E.U.A.) e estudioso da literatura argentina.”Formas Breves” – excelente apanhado de alguns de seus ensaios, diários, palestras e artigos – é uma obra de referência na crítica literária argentina. Acreditem, é uma quantidade de informação difícil de digerir assim, de cara. E terrivelmente assustador conhecer nas primeiras vinte ou trinta páginas nomes que são a excelência da literatura argentina contemporânea e que você nunca ouvi falar. Claro, um ou outro nome você conhece, já leu alguns portenhos ilustres, Borges, Cortázar. Outros você conhece de nome, Macedonio Fernández, , Lugones.

Mas a análise de Piglia é minuciosa e passeia de Joyce a Eurípedes, de Poe a Cervantes, de Freud a Roberto Arlt.

Me desespera, sobretudo, a ignorância que tenho em relação aos autores latino-americanos, os vizinhos aqui ao lado. E que eles provavelmente devem ter acerca dos brasileiros, já que quase nunca me é apresentado um novo autor nacional, imagine aos hermanos!

É uma postagem só pra lembrar que nossa literatura está nas estantes mais escondidinhas, que não conhecemos os escritores que falam o mesmo idioma que nós. São incríveis Guimarães Rosa, Machado de Assis, Clarice Linspector, mas há tempos não encontro as referências da nova literatura brasileira (que dirá da latino-americana).

Preciso ler mais a coluna “livros” da Ilustrada ou do Caderno 2?

Duvido.

Ricardo Piglia. Formas Breves. Companhia das Letras: São Paulo, 2004.

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Prólogo

março 19, 2008 at 3:07 am (Miscelâneas)

“Desocupado leitor, acredite que eu gostaria que este blog, como filho do entendimento, fosse o mais bonito que se pudesse imaginar. Mas não me é possível ir contra a ordem da natureza; que nela cada coisa gera seus próprios semelhantes”.

Paráfrase, tradução ignorante e simplificação grosseira de trecho do prólogo de Miguel de Cervantes para “El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha”.

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Para Começar…

março 13, 2008 at 5:58 am (Miscelâneas)

Um bom livro, literatura de preferência. Em seguida, o silêncio das madrugadas insones, ou o silêncio contínuo dos burburinhos das ruas, esse ruído constante do sacolejar dos ônibus, ou das rajadas de vento inesperadas anuciando a chegada do metrô. Depois, um ensimesmamento, uma predisposição à solidão, às transmutações do tempo e dos espaços, das vontades e dos desejos. Mais tarde, as flutuações e os suores. E, enfim: o entendimento. Guardemos esse espaço para nossas impressões, nossos palpites e nossas intuições. O que estou lendo, e o que vocês estão lendo, isso é o que deve interessar…

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